sábado, 27 de fevereiro de 2016

O preço por viver longe de casa

Como tem um bom tempo que estou sem escrever no meu Blog e recebi no e-mail um texto que reflete a minha vida hoje, então, resolvi postar para que meus amigos e leitores, saibam o preço que pago por viver longe de casa.

"Voar: a eterna inveja e frustração que o homem carrega no peito a cada vez que vê um pássaro no céu. Aprendemos a fazer um milhão de coisas, mas voar a vida não deixou.
Talvez por saber que nós, humanos, aprendemos a pertencer demais aos lugares e às pessoas. E que, neste caso, poder voar nos causaria crises difíceis de suportar, entre a tentação de ir e a necessidade de ficar.
Muito bem. Aí o homem foi lá e criou a roda. A Kombi, o patinete, a Harley, o Boeing 737. Daí a gente descobriu que, mesmo sem asas, poderia voar. Mas a grande complicação foi quando percebemos que poderíamos ir sem data para voltar. Assim, começaram a surgir os corajosos que deixaram suas cidades de fome e miséria para tentar alimentar a família nas capitais, cheias de oportunidades e monstros. Os corajosos que deixaram o aconchego do lar para estudar e sonhar com o futuro incrível e hipotético que os espera. Os corajosos que deixaram cidades amadas para viver oportunidades que não aparecem duas vezes. os corajosos que deixaram, enfim, a vida que tinham nas mãos, para voar para vidas que decidiram encarar de peito aberto.
A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamento dividido, é chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesmo escolha que subtraiu outras mil pedras preciosas.
E começamos a viver um roteiro clássico: deitar na cama, pensar no antigo-eterno lar, nos quilômetros de distância, pensar nas pessoas amadas, no que eles estão fazendo sem você, nos risos que você não riu, nos perrengues que você não estava lá para ajudar. É tentar, sem sucesso, conter um chorinho de canto e suspirar sabendo que é o único responsável pela própria escolha. No dia seguinte, ao acordar, já está tudo bem, a vida escolhida volta a fazer sentido. Mas você sabe que outras noites dessas virão.
Mas será que a gente aprende?
A ficar doente sem colo, sentir o cheio da comida com os olhos, a transformar apartamentos vazios na nossa casa, transformar colegas em amigos, dores em resistências, saudades cortantes em faltas corriqueiras?
Será que a gente aprende?

Ser filho de longe, amar via Skype, ver crianças crescer por vídeos, perder pessoas importantes na nossa vida e não estar presente para dizer um último adeus, fingir que a mesa do bar pode ser substituída pelo grupo do WhatsApp, ser amigo de caracteres e não de abraços, rir alto com HAHAHAHAHA..., engolir o choro e tocar em frente?
Será que a vida será sempre essa sina, em qualquer dos lados em que a gente esteja?
Será que estaremos aqui nos perguntando se deveríamos estar lá e vice versa?
Será teste, será opção, será coragem ou será carma?
Será que um dia saberemos afinal, se estamos no lugar certo? 
Será que há, enfim, algum lugar certo para viver essa vida que é um turbilhão de incertezas que a gente insiste em fingir que acredita controlar?
Eu sei que não é fácil e admiro quem encarou e encara tudo isso, todo dia. Quem deixou Vitória da Conquista, São José do Rio Preto, Floripa, Juiz de Fora, Recife, Sorocaba, Cuiabá ou Paris para construir uma vida em São Paulo. Quem deixou São Paulo para ir para o Rio, para Brasília, Dublin, Nova York, Aix-en-provence, Brisbane, Lisboa. Quem deixou a Bolívia, a Colômbia ou o Haiti para tentar viver no Brasil. Quem trocou Portugal pela Itália, a Itália pela França, a França pelos Emirados. Quem deixou o Senegal ou o Marrocos para tentar ser feliz na França. Quem deixou Angola, Moçambique ou Cabo Verde para viver em Portugal. Para quem tenta, para quem peita, para quem vai, o preço é alto. A gente se questiona, se culpa, se angustia. Mas o destino, a vida e o peito às vezes pedem que a gente embarque. Alguns não vão. Mas nós, que fomos, viemos e iremos, não estamos livres do medo e de tantas fraquezas. Mas, estamos para sempre livres do medo de nunca termos tentado."
Keep Walking

2 comentários:

SilvioCadete disse...

É sempre com muito gosto que leio seus Posts...têm sempre um um tom bastante profundo de mensagem.

Abraços em memória de todos os amigos que fizeste Família enquanto estiveste em Angola.

Domingos Silva - Silvio
Luanda - Angola

SilvioCadete disse...

É sempre com muito gosto que leio seus Posts...têm sempre um um tom bastante profundo de mensagem.

Abraços em memória de todos os amigos que fizeste Família enquanto estiveste em Angola.

Domingos Silva - Silvio
Luanda - Angola